1 de mai. de 2020

Sobre saudade


É vespera do seu aniversário, pai. O primeiro desde que o senhor fez sua passagem. Hoje retruquei em uma matéria do Estadão em rede social (é, eu sei, baita bobagem) e em um comentário revidando minha postagem um senhor me chamou de "petralha". Ri tanto, pai. Chorei de saudade e alegria pela lembrança de você... Voltei na publicação para agradecer o senhor por ter me proporcionado as memórias tão boas que vieram a partir do que ele me disse, mas ele apagou o comentário logo depois (a íntegra era "choooora petralha kkkkkk" - com mais ou menos letras "o" e "k").
O que escrevi para ele fica aí embaixo. Que saudade, pai. Te amo.

-------------------------------------------------------------------

Sr. Oswaldo, boa tarde! Tudo bem? Não tenho o costume de responder comentários de pessoas que não conheço, mas depois de ler o que o senhor escreveu, não me contive e senti que precisava vir lhe agradecer. Sei que provavelmente não foi essa sua intenção, mas quando me chamou de petralha me trouxe de volta memórias muito boas e peço desculpas se me estender demais na explicação. O fato é que não sou eleitora do Partido dos Trabalhadores, exceto pelas eleições presidenciais de 2002, quando aos 18 anos votei no Lula, não houve nenhuma outra ocasião para qualquer esfera do Executivo ou Legislativo que tenha direcionado meu voto ao PT (sim, em 2018, depois de uma crise de choro gigantesca na manhã do dia 28 de outubro, eu anulei meu voto - o que me causa muita vergonha pessoal, porque até então era uma coisa que nunca pensei que faria, mas enfim, é uma omissão pela qual me responsabilizo e com que tenho que lidar). Ainda, tanto fui, como continuo sendo, crítica de muitas ações praticadas nos governos anteriores ao de Jair Bolsonaro. No entanto, hoje o senhor me chamou de petralha e foi a segunda pessoa em toda minha vida que me adjetivou dessa forma, a primeira e, até então única, tinha sido meu pai. É bem verdade que na fala dele a parte do "chora" nunca tinha sido incluída, mas as risadas depois do "petralha" eram constantes. Era uma forma carinhosa de ele brincar comigo, já que embora tenhamos partilhado uma parcela razoável de opções eleitorais ao longo dos anos, sobretudo em âmbito municipal, minha visão política, em relação a dele, sempre foi mais enviesada à esquerda. Frequentemente eu lhe chamava a atenção quando ele reproduzia colérico algum discurso pouco fundamentado a respeito de algo que tivesse ouvido de um cliente ou amigo, outras vezes ele me olhava exasperado quando eu falava sobre algo que lhe soava como sendo discurso da esquerda. Era algo que nos fazia felizes. Seria muita pretensão minha afirmar como ele estaria reagindo perante a tudo o que tem ocorrido no mundo e no nosso país se ainda estivesse aqui, só posso fazer minhas reflexões pessoais tomando por base as últimas conversas que tivemos sobre o andamento da política nacional até dois meses e meio antes de falecer, quando ainda podia acompanhar o que estava ocorrendo no BR e no mundo. Ele andava bravo e desapontado com a postura do presidente, em quem votou no segundo turno em 2018. Pode ser que estivesse agora o criticando ou defendendo, não tenho como saber. Mas o que tenho certeza é que, mesmo se ele concordasse comigo em algo, certamente continuaria me chamando de petralha e soltando o riso. Ontem se completaram 5 meses do seu falecimento e amanhã seria o seu aniversário de 72 anos, então hoje é um dia particularmente complicado, mas esse seu comentário fez toda a diferença. Confesso que caíram ciscos gigantes aqui nos meus olhos, mas foram de alegria. Reforço que sei que não era sua intenção, mas de qualquer forma, de todo coração, muito obrigada! ☺

Nenhum comentário: