28 de fev. de 2011

Mimizando

Pela importância de em tempos em tempos se falar em casamento...

E aqui, antes mesmo de começar, faz-se uma primeira (e talvez única) pausa para explicar que:

não se trata da figura formal, da união de duas pessoas – homem e mulher, frente ao Estado, frente à Igreja, mas do meu casamento que, legal ou religiosamente, em verdade casamento não é. Sendo essencial ressaltar que, alheia as recomendações religiosas e também não próxima dos traços legais delineados nos artigos do Código Civil, que designa o que tenho em vida como sendo uma união estável e não um casamento, impedindo – juridicamente – que denomine àquele com quem convivo de cônjuge, propondo-me que o chame companheiro, algo que aos meus ouvidos e olhos soa sempre tão político, tão vermelho, falarei do que é meu, do que pode ser seu, mas que em momento algum será de todos ou para todos.

Fim da primeira (e talvez única) pausa.

... é o motivo que me faz escrever hoje.

Depois de algum tempo, quando o rosa não exalta os olhos da menina apenas por ser rosa ou o carrinho novo não faz brotar entusiasmo no menino por não ser mais novo, é que a gente passa a compreender a verdadeira validade de algumas coisas.

É só o tempo – soberbo e soberano como sempre é – que tem o poder de definir o que é para hoje e o que é para sempre, ainda que o sempre possa não ser assim para sempre.

E se a validade de algo num primeiro momento está na companhia e no transbordar de sentimentos que pouco se entendem, em todos os momentos futuros estará totalmente nesta mesma companhia e no transbordar já calmo e nada ameaçador ou confuso de sentimentos que embora não entendidos, são estimados, são vitais.

Numa tarde de domingo, quando o meu cônjuge, ou meu companheiro, como queira, dirige-se sozinho ao supermercado simplesmente por compreender e respeitar minha limitação pessoal de adentrar a esta espécie de estabelecimento sem ter minha calma e sanidade mental afetadas e propõe-se a comprar tudo o que os seres que habitam esta casa necessitam para continuarem vivendo sadios e felizes e aqui frize-se que comprará TUDO e o fará SOZINHO, tem o trabalho de perguntar-me uma última vez do que precisamos e responder ele mesmo enumerando nos dedos: ração dos cachorros, sabonetes, pasta de dente, condicionador de cabelos pra você e o seu absorvente daquela marca, do tipo que  se adapta atrás para não marcar sua calcinha evitando que fiques insegura e – muito importante – que tenha abas.

É neste momento que meus olhos saltam e meu coração de menina sorri e transborda e dá gritinhos infantis entregando que dentro desta carcaça posso ainda ter treze anos, e sinto-me apaixonada e entregue e ouço mentalmente Can’t take my eyes off you, que acredito piedosa e ceticamente que meu casamento é um casamento e tudo o que vem com a coisa toda é válido, para sempre, seja quanto tempo a parte do sempre queira ser.

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