Não direi que ela faz parte da minha existência desde sempre porque não sou capaz de afirmar isso com total certeza, embora não seja difícil acreditar que ela tenha estado presente desde o meu primeiro choro, sabe-se-lá senão desde a minha concepção.
Eu sou alguém que procrastina. Alguém que adia e vive catando não só moedas, mas também minutos. Caçando amargamente segundos perdidos debaixo das almofadas do sofá. Não me recrimine, não seja duro comigo. Por várias e várias vezes eu protelo por medo. Você nunca teve medo de fazer algo? Pois bem, eu tenho - e tenho com certa freqüência (quem foi mesmo que tirou o trema?). Morro de medo de lavar o banheiro, por exemplo. E quando o medo me falta, sobra-me a preguiça.
Sendo eu um alguém que vive fora do prazo, pode você perceber sem muito esforço que crescer ouvindo que "o tempo é a gente quem faz" é algo difícil, senão odioso. Revoltante. Discriminatório. Atentatório a minha falta de moral e bons costumes. É algo que fere o peito e trinca a alma.
Jogar-me a cara que "o tempo é a gente quem faz" é coisa que me faz ter vontade de pedir colo de mãe. Mas como pedir o colo de quem lhe esfrega uma inverdade destas às fuças? Isso me faz pensar sempre que ouço que "só as mães são felizes" que elas o são por pura crueldade (te amo, mãe).
Eis que hoje o Universo veio me fazer um chamego, coisa rara. E lendo o Estadão de dois dias atrás, dou com a coluna da Lúcia Guimarães que, tratando desta mesma temática foi capaz de fornecer-me algum conforto. Simpatia gratuita e identificação instantânea, daquelas que a gente só é capaz de ter por alguém perante situações críticas.
E então, que foi a autora citar um poeta nova-iorquino que lhe disse, perante suas reclamações pelo adiamento constante: "Vagueio e convido minha alma". Pois eu, ainda que como Lúcia consuma copos cheios de culpa nos cafés da manhã e da tarde, convido também meus pelo e meus poros para juntos entregar-nos ao desperdício do tempo.
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