8 de dez. de 2009

Feliz-cidade

Pretendia mesmo era publicar hoje algumas considerações sobre o final do meu querido-amado-algoz-provocador.de.crises.nervosas Brasileirão 2009, but, não rolou. Manja quando não rola, né? Então... Não rolou. Fica pra amanhã, pra semana que vem, pro ano que vem... 


Mas então, se não vai rolar Brasileirão, vai rolar o que? Já conto, já conto.


Hoje fui escalada para o cargo de babá da minha sobrinha linda, que, embora com seus 12 anos, resolveu desenterrar histórias antigas e humilhantes de sua própria infância e pediu que a lembrasse de certos fatos que sua memória, por si só, não pode carregar. Contei coisas dela, minhas, do meu marido. E lembrando algumas ceninhas lindas - or not - me veio uma sensação de felicidadezinha.


E taí sobre o que vim falar hoje, vim contar um casinho sobre felicidade.


Era março de 2004, eu era caloura na faculdade, caloura na cidade, caloura na vida daquelas quase quarenta pessoas que dividiam o espaço comigo. Por simples - e infeliz - coincidência, a sala da universidade que ocupávamos naquela primeira semana de aula se chamava Maracanãzinho, em razão do seu tamanho absurdo quando comparado aos das demais salas. 


Naquele dia o professor da vez apresentou-se como Fernandes, e nos informou que teria no decorrer de nosso primeiro ano a missão de apresentar-nos à Introdução ao Estudo do Direito, IED para os íntimos. 


Logo de cara, a sua baixa estatura, o pouco cabelo, as orelhas levemente pontudas e a mania de permanecer com as mãos juntas, unidas pelas pontas dos dedos, mas sem tocar as palmas me fez vê-lo com um ar meio étereo, místico, religioso. E, desde aquele primeiro momento, a imagem que carreguei e carrego do Professor Fernandes é a de um homem com condições potenciais para ter ocupado a função de duende caso sua vida no mundo jurídico não tivesse surtido frutos.


Antes de apresentar aos seus novos alunos qualquer conceito, Fernandes fez toda a questão de que nos apresentássemos a ele. Um a um, pelo que parecia ser a milésima vez naquela semana, dissemos nossos nomes, nossas origens, nossas idades. Porém, diferentemente das outras apresentações, fomos convidados a esclarecer o motivo que nos levava àquela sala de aula. Ou seja, queria ele saber o por que de termos assinalado Direito como opção na folha de inscrição do vestibular.


As respostas foram várias: porque quero ser Juiz Federal, porque quero ser Auditor Fiscal, porque quero ser advogado, porque quero ser juiz, porque quero ser promotor, porque quero ficar rico (mentira, isso ninguém disse, apesar que acredito que muitos pensaram).


Após caminhar ao lado de cada carteira ouvindo o que cada ocupante tinha a lhe contar e tecendo uma ou outra consideração, Fernandes voltou a frente da sala. Subiu no pequeno tablado que ali foi colocado a fim de proporcionar uma melhor visão àqueles que ocupassem o fundo da longa sala, naquele momento, quase vazia.


Fernandes olhou a todos nós, pausada e demoradamente, juntou uma outra vez as mãos tocando as pontas dos dedos, ensaiou um semi sorriso que, de imediato, reconheci como sendo sarcástico e, sem vacilar, deu ao seu olhar um tom de pai que olha o filho ingênuo. Um pai que olha o filho após ter este dito que havia pulado da cama e caído ao chão por ter pensado ser capaz de voar. É um olhar de pena, e que embora carregado de compaixão, sempre faz o destinatário entender, de forma delicada, é claro, mas ainda assim não menos vergonhosa, que fez bobagem.


Então, Fernandes disse algo mais ou menos assim:


"Vocês estão errados. Vocês não vieram até aqui e não desejam se formar em Direito para serem advogados, juízes, promotores ou o que quer que seja. Vocês estão aqui com o único propósito de serem felizes."


Neste instante realmente me percebi diante de um duende. Me vi conversando com hippies em São Thomé das Letras e, no ceticismo do final da minha adolescência, acreditei que não precisaria ter enfrentado dezenas de outros vestibulandos para conquistar o direito àquela cadeira para ouvir tais palavras. Vários foram os companheiros de sala que discretamente riram.


Fernandes certamente esperava aquela reação. Éramos jovens, a parte esmagadora de seus interlocutores era muito, muito jovem. Nós não poderíamos facilmente entender, e ele sabia e respeitava nossas limitações.


Após alguns segundos, Fernandes ficou sério, seu olhar ficou pesado como se carregasse o fardo de nos dizer uma verdade feia. Papai Noel não existe. Seu cachorro morreu atropelado na esquina. Você não pode voar.


E então, Fernandes nos contou que a felicidade não existe. Que nós, humanos, entendemos a felicidade como a realização completa de nossos objetivos, porém, humanos que somos, sempre temos mais e mais objetivos e, em razão disso, se continuarmos a condicionar nossa felicidade ao alcance de metas, jamais seremos felizes. A busca pela felicidade seria infinita, o desejo de mais e mais, de melhor e melhor, de maior e maior, não haveria de permitir nosso descanso, nossa realização, nossa paz de espírito.


Disse ele então que melhor que buscarmos a felicidade de tal forma, seria nos acostumarmos com a ideia de momentos felizes. Pois estes sim existem, são concretos e nos permitem a alegria de viver e reviver através da memória situações em que a perfeição pareceu existir, ainda que fosse ela efêmera.


Eu demorei muito tempo para ver aquele homem da forma que ele claramente sempre se apresentou, afinal, também era eu muito jovem, incapaz de perceber coisas que hoje percebo, embora tenha plena ciência que muito mais está por vir. Demorei para reconhecer o valor daquelas palavras e o valor de quem as proferiu.


E então, quatro anos e sete meses depois procurei Fernandes pelos corredores da universidade. Encontrei-o dentro da Secretaria juntando folhas e documentos, pedi licença para lhe fazer um convite em nome da minha turma. Pedi-lhe que aceitasse a posição de nosso Paraninfo Espiritual.


Fernandes pareceu ficar surpreso, afinal, pouco havia nos encontrado após o final daquele primeiro ano. Não tivera a oportunidade de lecionar à nossa turma Direito Tributário no penúltimo ano de curso. Ele não entendia o motivo que nos levava a elegê-lo como nosso padrinho espiritual. 


Quando perguntou-me o por que daquele convite eu nada pude dizer além de que "Porque foi você Professor, que em nosso primeiro ano, nos ensinou sobre a felicidade".


E foi sobre a felicidade que ele tratou em seu discurso em nossa missa de formatura, neste último 05 de fevereiro .


E é devido as palavras que nos dirigiu nestas duas ocasiões que pude me permitir melhor aproveitar momentos de felicidade e devotar maior prazer no reconhecimento eventual de tais lembranças.


Foi com muito, muito pesar que recebi a notícia de que, neste ano, Fernandes se aposentara. Sinto aqui dentro que dezenas, centenas, milhares de outros que virão a ocupar aquelas mesmas cadeiras mereciam a oportunidade de ouvir aquelas palavras e partilhar daquela experiência. Mas como nada é eterno, e tudo é mutável, também sinto que na sua missão profissional, lecionando por anos, o trabalho de Fernandes foi muito feliz

3 comentários:

Carla Libório disse...

Gostei demais do seu blog e de certa forme me emocionei nesse último post. Te achei num comentário lá no "Ela fala e sai andando" e gostei do título do blog e aqui estou. Parbéns, vou linkar vc no meu fururo blog (digo isso porque o meu ainda não tá pronto!) Bjo! Vou voltar mais vezes!

Anônimo disse...

leitora nova!
vamos ver se vc descobre qm é!
minha primeira aula de IED teve um início muito parecido! mas eu jurava q a tia adê possuia um ar de sábia feiticeira
porém ela não fez um discurso tão belo, na verdade jogou um balde de água fria nos calouros dizendo: é aki que a sua vida começa!
bjaum, loira estressada

Anônimo disse...

Fernandes, um MESTRE.