Liguei para a mamis por volta das 11 horas hoje, para perguntar as instruções para o almoço de Ano Novo e pedir a forma de pudim emprestada.
As instruções, na verdade, eram aquelas coisas de sempre: o horário em que devo chegar, o que teremos para comer, se deseja ela que eu leve algo que tenha se esquecido de comprar...
Ou seja, praticamente tudo que já sei (como o horário ser meio dia, o cardápio ser bacalhoada e que ela nunca se esquece de comprar nada), mas enfim, precisava introduzir algum assunto antes de usar a cara de pau pra pedir a famigerada forma, ainda que o empréstimo fosse em razão do pudim que faria para eles mesmos comerem.
E então, de repente, e não mais que de repente, mamãe responde à minha primeira pergunta – aquela do horário, lembra? – com a seguinte resposta:
- Almoço de Ano Novo? Mas que almoço?
Não, não vai ter almoço. Ninguém planejou um almoço de Ano Novo. Nada foi combinado. Nada.
E aí, minha gente, não vai ter almoço de Ano Novo! Comofas então?
Por todos os anos da minha humilde existência, sempre houve almoço de Ano Novo. Sempre teve a travessa gigante de bacalhoada à mesa. Sempre... Mesmo nos anos em que não passei o Ano Novo na casa de mamã e papá... Sempre!
Nunca existiu esta historinha de planejar. Nunca antes alguém teve que combinar qualquer coisa. Nunca!
Mas este ano não. Não tem almoço. Não terá!
E soubesse eu da furada, da tiração (ou tiramento, como quiserem, já que penso eu que ambas palavras non ecxistém) de corpo fora, da sacanagem com minha pessoa que se encontrava afoita por devorar com toda gentileza sherekiana uma pratada de bacalhoada, não teria, nem longe, mas nem a pau, feito o marido enfrentar “a fila” no mercado ontem para gastar 30 pilas em ingredientes para fazer o maldito do pudim do Papa!
O raio do pudim que papá comentou uma vez que era o mesmo que a vovó fazia para ele quando era criança, e que desde seu falecimento, quando ainda era molecote de tudo, nunca mais comeu – e eu, melequenta que sou, fiquei toda mexida, comovida, surtando histericamente com a possibilidade de fazê-lo feliz com algo tão simples.
O pudim que estou ensaiando há mais de dois anos para fazer e, só agora, tive coragem e estabilidade emocional para enfrentar tão misteriosa aventura culinária.
Mas só de réeeeiiiivaaa, muita, muita réeeeiiiivaaaaaa, eu vou me enfiar na cozinha esta noite, antes do Ano Novo chegar e vou, vou sim produzir o pudim do Papa, ou neste caso, melhor dizendo, o pudim do papá. E o levarei amanhã, depois do almoço sem bacalhoada na casa daqueles que me fizeram órfã de almoço de Ano Novo!
A Kaká tá traumatiza, muito, muito traumatizada. E, em razão disso, pode acabar tomando todo o rum do pudim, colocando a perder toda a pretensão de sucesso da receita.

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