O dia do aniversário é o primeiro dia de um ano. Sente-se o mesmo quando se escreve a primeira palavra em um caderno novo.
Cada letra é desenhada com precisão cirúrgica: para ficar mais redonda, para ficar mais pontuda, para ficar mais legível, para demorar mais para ficar pronta. Para a sensação durar mais.
Isso, às vezes, se estende pela linha, por um parágrafo inteiro, pode completar toda a página. Mas, é fato, não há perfeição que dure até a quinta ou sexta página, como não há perfeição que perdure até o quinto ou sexto dia.
Começa-se a escreve mais rápido, mais rápido. Vem a pressa. A tinta daquela caneta acaba, usa-se outra, não da mesma cor. Porque vem a pressa.
Passa-se a usar abreviações inventadas. Vem o saco cheio. A escrever só letra e ponto, mesmo que depois não mais se entenda o significado do que se quis escrever. Porque vem o saco cheio.
E, às vezes, a matéria acaba antes do final do caderno e ele fica jogado num canto do armário, todo quase inteiro usado.
O caderno ainda tem folhas limpas, intocadas. Mas não se começa nova série com caderno usado.
É o mesmo com cada ano de cada um: é possível que tenham restado vários dias em branco no ano que passou, mas não dá para voltar nessas lacunas e tentar viver alguma coisa.
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